HÁ 102 ANOS, NASCIA O PRIMEIRO MUSEU DE MINAS GERAIS

Os 81 anos da doação do MMP ao município de Juiz de Fora serão celebrados entre 28 de fevereiro e 1º de março de 2017

 

tira2Ícone da memória histórica do Brasil, de Minas Gerais e de Juiz de Fora, o Museu Mariano Procópio é um marco do pioneirismo da cidade industrial mineira e da obstinação de juizforanos como Alfredo Ferreira Lage (1865/1944), que dedicou sua vida à formação de um dos mais significativos acervos artísticos, históricos e de ciências naturais do país. Filho de Mariano Procópio Ferreira Lage – construtor da primeira estrada de rodagem macadamizada no Brasil, a União e Indústria, no período de 1856 a 1861, ligando Juiz de Fora a Petrópolis – Alfredo Ferreira Lage transformou, em museu particular, em 1915, há 102, a Villa edificada por Mariano Procópio, em 1861, para receber a família imperial de D. Pedro II. Nascia, assim, o primeiro museu de Minas Gerais.
Para marcar o centenário de nascimento de Mariano Procópio, em 23 de junho de 1921, Alfredo Ferreira Lage inaugurou o Museu na Villa, projetada e construída no estilo renascentista pelo arquiteto alemão Carlos Augusto Gambs, e situada no alto e no centro de um parque de 78 mil metros quadrados. O parque do Museu Mariano Procópio valoriza em seus jardins a flora exótica e brasileira. Foi considerado pelo naturalista suíço Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807/1873), especialista em geologia e paleontologia e colaborador do acervo de História Natural do Museu, como “o paraíso do trópicos”.
A ampliação do acervo de Alfredo Ferreira Lage levou à construção de um prédio anexo à Villa, onde foi criada a Galeria Maria Amália para abrigar parte das obras que integram uma pinacoteca de reconhecida importância, abrangendo, principalmente, o período de 1870 a 1930. Em 13 de maio de 1922, o Museu Mariano Procópio foi oficialmente aberto ao público e inaugurado com o acervo que ocupava tanto a Villa quanto o anexo. Em 29 de fevereiro de 1936, Alfredo Ferreira Lage efetivou a doação ao município do conjunto do Parque e do Museu Mariano Procópio. Portanto, os 81 anos da doação ao município serão celebrados entre 28 de fevereiro e 1º de março de 2017. E o que se espera da Fundação Museu Mariano Procópio (Mapro) e da ONG, Associação Cultural de Apoio ao Museu Mariano Procópio (Acammp), fundada em junho de 1995, é a intensificação e a elaboração de projetos voltados para o resgate e para a valorização da história do primeiro museu de Minas e para lançar um feixe de luz sobre a diversificada coleção.
Um acervo constituído de cerca de 45 mil objetos de grande valor histórico, artístico e científico, faz do Museu Mariano Procópio um dos mais importantes núcleos de saber do Brasil. Pinturas, esculturas, gravuras, desenhos, livros raros, documentos, fotografias, mobiliário, prataria, armaria, numismática, cartofilia, indumentária, porcelanas, cristais e peças de História Natural integram o acervo, preservando o passado para que as novas gerações possam extrair conhecimento e refletir sobre o presente e a construção do futuro.
Obras de expoentes da pintura européia, como os franceses Charles François Daubigny (1817/1878) e Jean Honoré Fragonard (1732/1806) e o holandês Willem Roelofs (1822/1897) são destaques no acervo ao lado de trabalhos de brasileiros como Pedro Américo de Figueiredo e Melo (1843/1905), Rodolfo Amoedo (1857/1941) e Belmiro de Almeida (1858/1935). Esculturas e moldes de gesso, principalmente do século XIX, de artistas como Claudion, Marius Jean Mercié, Rodolfo Bernardelli, Modestino Kanto e José Otávio Correia Lima também se projetam no conjunto do Museu.
Os trajes da coroação, da maioridade e do casamento de D. Pedro II e o traje de corte da Princesa Isabel são as mais significativas peças de indumentária expostas no Museu Mariano Procópio. O acervo mobiliário, que é considerado um dos mais importantes do país, destaca-se pela coleção de peças a partir do século XVI e até o século XIX, estas em grande parte adquiridas do Palácio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro.
A doação de Amélia Machado Cavalcanti de Albuquerque (1852/1946), Viscondessa de Cavalcanti, no setor numismático, abrange desde moedas greco-romanas, estampando a efígie do imperador Júlio César, até medalhas raras européias. O Museu Mariano Procópio guarda ainda parte da história da armaria ao longo do tempo, com destaque para um punhal do século XVI, com bainha em marfim, veludo e aço, que pertenceu ao rei Francisco I (1515/1547), da França, e um polvorinho de marfim, que pertenceu ao rei Augusto Sigismundo II (1548/1572), da Polônia.
Conhecer o Museu Mariano Procópio é resgatar aspectos da essência cultural e histórica do Brasil, de Minas Gerais e de Juiz de Fora. Parte da vida colonial brasileira e do período imperial fazem do acervo do primeiro museu de Minas Gerais um dos mais instigantes e diversificados do país.
Uma das obras mais significativas do museu juizforano e uma das mais importantes cenas históricas brasileiras, o óleo sobre tela Tiradentes esquartejado, de 1893, de autoria de Pedro Américo, é um marco do acervo do Museu Mariano Procópio e integrou a seção do Núcleo Histórico da XXIV Bienal de São Paulo, em 1998. Intitulada “Antropofagia e Histórias de Canibalismos”, a seção abrigou uma exposição dedicada ao século XIX e tratando da crise do Iluminismo em associação ao canibalismo, organizada por Régis Michel, curador do Départmentdes des Arts Graphiques do Musée du Louvre. Segundo a curadoria da XXIV Bienal de São Paulo, em 1998, o óleo sobre tela Tiradentes esquartejado é a única pintura que apresenta o herói da Inconfidência Mineira enforcado e esquartejado. Assim, esse Tiradentes se revela como uma espécie de provisão simbólica para uma sociedade egressa do processo colonial, oferecendo uma aguda metáfora da colonização como processo canibal.
tira3O Museu Mariano Procópio está situado na rua Mariano Procópio, s/n, com entrada para veículos pela rua D. Pedro II, s/n, Juiz de Fora, Minas Gerais. Brasil.
 
 
A foto do quadro Tiradentes Esquartejado é do acervo do MMP
A foto das estátuas em frente à fachada do MMP é de Marcelo Horta
A foto da fachada do MMP e de uma passagem interna do MMP são de Angelo Savastano
Jorge Sanglard é jornalista, pesquisador e produtor cultural. Escreve em jornais de Portugal e do Brasiljorgesanglard
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