PLENITUDE ENCONTRADA NAS FALAS PERDIDAS

O mais recente trabalho artístico do músico mineiro Luizinho Lopes, o CD Falas Perdidas, produzido pela FUNALFA e com lançamento marcado para este mês de dezembro, evidencia com clareza e doçura a maturidade artística desse músico cuja trajetória é bem conhecida além das fronteiras regionais. Com segurança e muita poesia, Lopes cria um universo sonoro povoado por tons às vezes contrastantes, alguns ásperos (na evocação a realidades secas do Sertão), outros melancólicos, outros ainda líricos. Muitas vezes, essas paisagens musicais se encontram na mesma música, em sequências finamente costuradas por uma primorosa orquestração de instrumentos, habilmente dirigida pelo produtor e arranjador Ricardo Itaborahy.

A abertura do CD é impactante: a primeira faixa, “Infinito Em Pé”, inaugura perfeitamente o espírito do CD, transportando-nos de imediato para aquele universo coeso que neste CD é mantido em constante tensão. Nenhum excesso, nenhuma queda, nenhum tom desafinando com a emoção costurada com sobriedade ao longo do trabalho. A melodia se abre aos poucos para a paisagem nordestina onde a voz e o timbre do canto de Luizinho lembram um Geraldo Azevedo ou o Antônio Nobrega. No entanto – e aqui é onde reside a fascinação – a letra da música não dialoga com esse universo de referência, o que gera um contraste instigante – e que voltaremos a encontrar em várias faixas do CD. Resulta disso um clima algo modernista, pois, nesse contraste entre o rural/tradicional melódico e a fuga da letra para um discurso metalinguístico, existe uma dissonância que o ouvido atento capta e que remete, afinal, para essa rica página da cultura brasileira a partir da qual os artistas procuravam juntar as raízes populares da cultura nacional e valorizá-las por meio de um olhar sempre moderno. Nessa primeira música, destaque para presença ilustre da viola de 10 cordas de Fabrício Conde, única incursão no CD.

luizinho2Na segunda faixa, que dá título à obra, encontra-se um equilíbrio perfeito entre o poema (porque a habilidade de Luizinho Lopes com os versos é magistral) e a melodia. Há muito sol e muitas vozes nesse universo popular que assoma e aqui pisca o olho, e a partir da metade dessa “Falas Perdidas”, com a entrada da percussão do Bré Rosário, da bateria de Leandro Scio, e das vozes de fundo (vocais), se torna uma ciranda muito vigorosa, um lindo convite à vida.

Com a terceira faixa, “Céu de Lisboa”, de um rico arranjo musical (com a entrada dos violinos de Bernardo Bessler e Rudá Issa, da viola de Christine Springel e do violoncelo de Marcus Ribeiro, além do acordeom tocado por Toninho Ferragutti) somos transportados para uma modinha portuguesa, em releitura, de novo, fora da tradição. Existem dissonâncias na harmonia que dialogam com a intimidade do olhar daquele que se encontra aos poucos no acerto com uma língua outra (“na língua pousa outro verbo”), e que culminam no intenso diálogo, delicado e poético, entre a guitarra de Daniel Drummond e os arcos, perto do fim da música, que criam estrelas no céu de Lisboa. A música fecha em elevação, e somos trazidos na ponta do pé até a quarta faixa, “O Sol Não Arreda Do Sertão”.

Aqui nos adentramos mais um pouco nessa paisagem musical do Sertão, reforçada pelos solos de clarinete e clarone do virtuoso Caetano Brasil, além da sutileza da flauta de Salomé Viegas. A letra é evocativa e quando Lopes termina o refrão, a música se abre como uma flor com a voz cristalina de Bruna Marlière e a entrada da percussão. E é como se a claridade do sol estourasse na sala de chão batido. Maravilhosa essa mudança de tom que, como recita a letra, “foi como o fogo se alastrando / queimando sem nenhum perdão”. Há alguma evocação do mundo roseano – aliás, Luizinho Lopes é originário daquele canto do mundo de Minas teatro da cena épica da morte de Diadorim -: Pirapora, a ribeirinha. E há sim um Diadorim e um Riobaldo nesse canto em dose dupla, voz masculina e voz feminina que se sucedem e sobrepõem ao falar sobre o amor.

Há portanto esse norte de Minas rural na evocação musical, mas não só.

Na quinta faixa, “Na Palma Da Minha Mãe”, o destaque inicial é todo para a letra metalinguística (sobre o compasso do violão aço e do violoncelo). Mais uma vez, a música logo se ilumina à medida que outros instrumentos engrossam o fio condutor da letra. A música configura um crescendo até o momento em que o coro – maravilhoso – se impõe; os instrumentos aos poucos se calam e a música se torna essencial, deixando livre o palco somente às vozes do coro, que evocam a presença dos antigos num canto que tem algo de ritualístico, uma procissão de imagens e de silêncio.

As faixas seguem esse ziguezague entre evocações de um universo popular brasileiro (como em “Profetaria”, que lembra algumas das interpretações mais arejadas de Renato Braz) e a tentação da saída em direção a um canto / verso que, norteados pelas rimas ousadas das letras, convocam outros sentidos e sonoridades, mais urbanas e surpreendentes.

Na faixa 11, “Contando Estrelas”, talvez um dos pontos mais altos do CD, nos deparamos com um poema de amor que lembra algo das cantigas medievais numa instrumentação essencial e tocante. A graça que paira sobre essa lírica amorosa parece vir dos tempos remotos, de onde sua aparente simplicidade. Direta e divina, essa música, como divino sabe ser, às vezes, o sentimento amoroso.

Na generosidade dos instrumentos convocados a tocarem nesse CD, muitas vezes em leve descompasso com o sentido dos versos (regional versus universal), entre melodia e letra, está seu lado sempre novo e cativante, por não se configurar nem como um trabalho regionalista, nem experimental, mantendo em vários momentos uma vaga ambiência mineira – na melhor tradição do Clube da Esquina, principalmente nas faixas onde o peso do instrumental é preponderante, como na faixa 13, “Tudo Parte”.  Nessa faixa temos uma longa introdução musical, primorosa, com solos belíssimos dos músicos, que criam uma paisagem que será subitamente quebrada, quase no final, pela voz do músico recitando friamente um texto cabralino. Nessa dobra (quando entra a voz de Lopes) a música se transforma, esgarçando qualquer elemento que remeta a uma tradição antes evocada e bordando assim, cada instrumento, sobre a voz do cantor como sobre um lençol branco, seu próprio bordado.

A última faixa, “Lume”, é composta só por voz, acordeom e poesia, muita poesia. Delicada homenagem ao próprio pai. O acordeom encerra com emoção esse novo trabalho de Luizinho Lopes, que acrescenta um degrau intenso e densamente poético ao seu percurso musical.

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PRISCA AGUSTONI é poeta, ensaísta, tradutora suíça radicada no Brasil.
É docente na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Publicou, dentre outros, os livros “Hora zero” (poesia, Editora Patuá, São Paulo, 2016) e “O Atlântico em movimento: signos da diáspora africana na poesia contemporânea de língua portuguesa” (ensaio, Mazza Edições, Belo Horizonte, 2013). A autora escreve sua obra poética em italiano, francês, português e espanhol, tecendo um mosaico linguístico-cultural que aborda, dentre outros temas, a perplexidade do sujeito contemporâneo, o exílio, as rupturas identitárias e os esforços de elaboração de novos cenários de diálogo e interação social.
Foto: Fonte Jornal Rascunho.
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