‘Estação das Clínicas’, de Iacyr Freitas, revela a poética da perda e da dor

Iacyr Anderson Freitas comemora 35 anos de carreira literária

livroiacirAutor de mais de vinte títulos de poesia, além de três de ensaio literário e um de contos (Trinca dos traídos – Menção Especial no Premio Literario Casa de las Américas, em Cuba, em 2005), o escritor mineiro Iacyr Anderson Freitas celebra os 35 anos de sua estreia literária lançando sua nova obra poética Estação das Clínicas. No dia 14 de dezembro, quarta-feira, das 19h até as 21h, no Bar Canto Madalena (Rua Medeiros de Albuquerque, nº. 471, Vila Madalena, São Paulo), Iacyr receberá amigos paulistas para um bate papo e para apresentar o novo livro. Depois de realizar lançamentos em Itaipava, Belo Horizonte e Juiz de Fora, São Paulo recebe o autor, que é considerado a grande voz poética contemporânea da língua portuguesa.  

Após a excelente acolhida crítica de seu livro anterior, Ar de arestas, finalista do Prêmio Jabuti e semifinalista do Prêmio Portugal Telecom, Iacyr ressurge com uma obra completamente distinta. Neste contundente Estação das Clínicas a teia lírica envolve e mobiliza o leitor, levando-o a dialogar com personagens tomados pelo sentimento de perda, em seus diversos níveis de referência. Em primeiro plano, como o próprio título indica, a perda da saúde. Algumas vezes medicada, pelo autor do também premiado Viavária, com doses homeopáticas de ironia e humor.

Mais uma vez, a dor e a perda permeiam o fazer poético do autor. Afinal, a dor é algo crucial e uma temática que costuma chamar a atenção. O sentimento de afeto, de desamparo, de orfandade que tanto a dor quanto a perda trazem foram os caminhos que o autor perseguiu em Ar de arestas e também nessa nova obra.

Iacyr Anderson Freitas é um escritor comprometido com a qualidade e uma das mais expressivas vozes poéticas brasileiras do final do século XX e do início do século XXI. Sua obra poética vem se consolidando como das mais significativas na língua portuguesa contemporânea e sua trajetória na poesia vem revelando sua inventividade e criatividade ao longo desses 35 anos de mergulho de cabeça no fazer literário. Sem fazer concessões, Iacyr vem construindo uma poesia sólida, desafiadora e permanentemente viva, capaz de surpreender o leitor a cada novo livro, a cada nova investida do autor.

Lançado pela Editora Escrituras com recursos da Lei Murilo Mendes de Incentivo Cultural, o novo livro traz capa e ilustrações de Mário Tarcitano.

Companheiro de geração, o premiado escritor mineiro Luiz Ruffato enfatiza que “Iacyr Anderson Freitas é hoje, sem dúvida alguma, o maior nome de sua geração – e um dos maiores poetas vivos da língua portuguesa. E este belíssimo Estação das clínicas vem corroborar a opinião daqueles que como eu acreditam na poesia alicerçada no cotidiano do ser humano comum convertida em metáfora da Humanidade pela empatia (o outro como nós mesmos). Ponto alto de uma obra iniciada na já distante década de 1980 e consolidada ao longo de vasta bibliografia, Estação das clínicas é madura meditação a respeito da transitoriedade da vida e dolorosa busca de superação metafísica.”

Luiz Ruffato assina a contracapa e a introdução do livro e assegura que Estação das Clínicas “reencena a Paixão” de Jesus Cristo, ao colocar o hospital como “síntese do sofrimento físico e da dor transcendental”. Iacyr passou por duas cirurgias complicadas, perdeu o pai e, em seguida, a irmã. Conviveu com a dor e passou a refletir sobre seus reflexos na vida. Ruffato também é uma espécie de especialista na dor e na tragédia familiar. Suas perdas também foram imensas. Desse assunto, o poeta e o contista e romancista entendem como poucos.

Iacyr articulou o livro em três setores: Pré, In e Pós, remetendo ao tempo em que os pacientes freqüentam os hospitais. E enfatiza: “muitos poemas surgiram do convívio hospitalar, um ambiente que, até então, eu não conhecia muito”.

SAÍDA DE EMERGÊNCIA

A Fernando Fagundes

vida, vida, vida,
a mesma, agora
na memória,
em edição corrigida,

capa de couro, papel-bíblia,
a mesma, não, não mais,
outra,
em edição coligida

que tudo muda:
a dor extinta
já não punge,
outro o papel, outra a tinta,
outra a cor e a lombada
desse livro
que da sombra surge
e no alvor
desaba

– lá se vai
o rio, a rua, a casa,
a promessa não cumprida
posta de bruços
na saída

de emergência

com o título
à deriva
(letra imensa
em magenta:

vida)

Sobre a poética de Iacyr, Miguel Sanches Neto afirma: “Iacyr Anderson Freitas fala de coisas vividas e sentidas, como toda grande poesia, fundando-se no homem. Dono de uma língua universal, consegue ele dar naturalidade a textos que tratam, de forma clara, sentimentos de impotência diante do tempo, buscando, no amor renovado, a recuperação de toda a alegria, hoje perdida”.

iacir1Iacyr Anderson Freitas nasceu em Patrocínio do Muriaé, Minas Gerais, em 1963. Formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Juiz de Fora, o poeta obteve também, pela mesma instituição, o título de mestre em Teoria da Literatura. Publicou diversos livros de poesia, ensaio literário e prosa de ficção, tendo recebido várias premiações no Brasil e no exterior.

Sua obra se encontra bastante divulgada em outras línguas e países (Argentina, Chile, Colômbia, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, Malta, Nicarágua, Suíça, Peru, Portugal e Venezuela). Além de colaborar intensamente na imprensa brasileira, já publicou poemas e textos críticos em Private e Semicerchio (Itália), Rimbaud Revue (França), Arquitrave e Comun Presencia (Colômbia), Fokus (Malta), International Poetry Review (USA), Los rollos del mal muerto (Argentina), O comércio do Porto e Saudade (Portugal), Fórnix (Peru) e Serta (Espanha), entre outros.


Jorgejorgesanglard Sanglard é jornalista e escritor. Escreve para jornais do Brasil e de Portugal. Foi colaborador especial do caderno “das Artes das Letras” do jornal O Primeiro de Janeiro, no Porto, em Portugal, e é colaborador especial do jornal As Artes Entre As Letras, no Porto, em Portugal. É assessor de imprensa na Câmara Municipal de Juiz de Fora (MG).

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