Homo Curiositas: Por que somos tão curiosos?

Por que desviamos nosso foco de uma planilha que temos 10 minutos para entregar quando algo inesperado acontece no trabalho? Por que ficamos loucos para adquirir o novo Iphone? Por que a mulher do vizinho parece mais interessante do que a sua mesmo sabendo que ela é chata demais e ver seu vizinho falando que ela esta gorda?

Por que sempre procuramos os porquês das coisas?

A palavra curiosidade tem sua origem na palavra latina curiositas, ao qual alguns estudiosos atribuem como um neologismo baseado na palavra cur, que em latin significa “por quê”. Criado por Cicero para definir a vontade de descobrir o porquê das coisas, o neologismo curiositas desde então parece ser matéria de pesquisa e elucubração para cientistas das mais diversas áreas.

Esta vontade de explorar, inteligir ou transgredir um padrão intriga a humanidade por milênios. Podemos achar citações de Aristóteles, santo Agostinho, Nietsche, entre outros sobre esta vontade.  Os estudos modernos não se distanciam das ideias antigas como mostra George lowerstain, professor da universidade Carnagie Mellow. Pode-se citar algumas destas teorias como as teorias motivacionais (drive theories no original) que entendem curiosidade como um “incomodo” que motiva ou se resolve com a exploração do ambiente, como a fome motiva a busca de comida. Com este princípio eles começam enumerar e classificar o que causa este incomodo, como o tédio que pode ser visto como uma aversão a familiaridade, motivando a exploração do novos ares.

O grande problema é que, diferente da fome, a curiosidade às vezes parece insaciável e pode aumentar quando iniciamos um movimento exploratório. Por exemplo: eu adoro barcos e quanto mais eu leio sobre tipos de embarcações mais eu quero saber sobre as vantagens e desvantagens de cada uma, mais eu fico curioso para pesquisar sobre diferentes tipos de embarcação, cada texto que leio amplifica minha curiosidade sobre o tema. Seria como comer um belo prato de feijoada e ficar mais faminto do que já estava a cada garfada.

Após mostrar o arcabouço de teorias envolvendo o assunto, Lowerstain destaca alguns aspectos determinantes sobre a curiosidade para sugerir uma teoria onde curiosidade surge de um gap de informação. Basicamente, quando percebemos uma informação faltante e importante para a tomada de decisão ficamos curiosos ou com vontade de adquirir esta informação gerando o movimento exploratório. A ideia surge buscando modelar três características aparentes da curiosidade; tendência a exposição voluntária à curiosidade, o fato de ser muito elicitada em situações de gap de informação e sua transciência e intensidade.

O modelo se baseia na ideia de entropia; a grandeza física para medir irreversibilidade de um sistema ou desordem. Humanos ficam curiosos para reduzir a entropia (ou gap de informação) á zero. Também podemos dizer que humanos ficam curiosos para ordenar um novo olhar sobre um fenômeno, que conflita com um ponto de referência já existente acerca deste fenômeno. Toda fez que um novo objeto, ou um objeto que não compreendemos por completo apareça, a entropia aumenta e buscamos resolvê-la através da exploração ou imposição de um padrão crível. O grande problema fica novamente no fato de ficarmos curiosos em situações que temos informação completa sobre objeto alvo da curiosidade. Além disto, este modelo não capta o efeito das não escolhas. Aquela sensação horrível de como seria se tivéssemos feito de outra forma, o que nos mantem curiosos.

Talvez a melhor forma de modelar as características da curiosidade seja entendê-las como a dissonância de ondas reverberando em meios plásticos. Afinal de contas, nosso cérebro reverbera ondas cerebrais advindas de estímulos sensoriais pelo meio de ondas eletroquímicas e, com certeza, é um dos um dos órgãos mais plásticos do corpo, se remodelando a cada nova conexão que fazemos. Percebemos redução na curiosidade de idosos, assim como, cérebros tornam-se menos plásticos em idosos, conforme muitos artigos de neurociência.

Talvez curiosidade surja mais da dissonância entre expectativas sobre um fenômeno e sua reputação ou impressão vivida.

Por exemplo, eu posso dizer que estou curioso sobre qual será o resultado do jogo Brasil x Lituânia por que eu não sei quem vai ganhar, mas talvez seja mais correto eu dizer que estou curioso sobre o jogo por que tenho expectativas que o Brasil perca mesmo nunca tendo visto um jogo em que o Brasil perdeu para a Lituânia, afinal de contas se eu espero que o placar seja Brasil vence, como sempre, eu não ficarei curioso dado que minhas expectativas são idênticas ao que minhas experiências passadas me mostram e provavelmente eu só assistirei ao jogo se for fanático por futebol ou porque não tem nada melhor na TV.

Se olharmos para as intuições milenares podemos ver que estão associadas a falta de familiaridade e assombro ou violação desta reputação por uma expectativa, assim como, a falta de reputação também gera o assombro. Talvez queiram justificar nossa vontade de conhecer como uma vontade inata de explorar o mundo, mas se olharmos a fundo o ser humano, como todo animal que evita ao máximo o gasto de energia, então por que explorar algo somente por explorar? Por que buscar controlar ou padronizar algo somente por padronizar? Mas, se entendermos a necessidade de evitar o conflito entre expectativas e reputação, vemos mais sentido no gasto de energia. Afinal de contas, quando estes dois conceitos estão em conflito, o que vivemos é uma dúvida que nem sempre pode ser sanada por mais informação, mas teremos que sanar para tomar uma decisão e sair da dúvida.

Enxergando-se curiosidade como uma dissonância, poderemos enxergar a resolução dela tanto pela experiência do fenômeno para comprovar uma expectativa, quanto pela adequação de uma expectativa per se, seja pela busca de informação ou pela simples adequação das informações existentes. Com isto fazemos a dúvida ir embora e a decisão ser clara e previsível para nossa mente mesmo que no mundo ela seja caótica e imprevisível em sua totalidade. Enquanto este conflito interno não é resolvido temos curiosidade, o que faz sentido ao processo de decisão, diferente da busca simples por informação que somente dá mais base para a formação de expectativa e reputação, mas não resolve o conflito per se.

Obviamente ainda estamos muito aquém de entender todos os mecanismos de escolhas de um ser humano, mas entender sobre como curiosidade funciona poderá nos ajudar a entender melhor como nosso cérebro da preferência de foco a fenômenos. Podemos ter escolas mais eficientes, propagandas mais chamativas, podemos direcionar o foco de seres humanos ao que importa e buscar inibir o foco no que não importa para sociedade, como uso das drogas. Como sabemos, não somos bons em fazer mil coisas ao mesmo tempo e foco sempre será algo indispensável para não enlouquecermos diante de tantos estímulos e conseguirmos tomar decisões. Entender melhor como isto se forma e como podemos influenciar nosso foco, pode nos ajudar muito a termos uma vida mais produtiva.

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Hanna Wadih Hiar Neto, Economista (Insper) e Diretor Geral da Marca de moda Cavalera. Contato: hanna@cavalera.com.br


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