Cultura e Contracultura

Caros leitores (as)!

Hoje, dirijo-me a vocês para falar de uma angústia que vem crescendo, continuamente, nos tempos presentes. Gostaria de falar um pouco acerca dos meus devaneios, quase frequentes nestas madrugadas quentes de primavera. O assunto que ora me atormenta é o processo cultural (ou contracultural) no qual estamos submersos até o pescoço. O que é cultura, afinal? Na sociedade moderna é difícil (para não dizer impossível) respondermos a esta indagação.

Observando os noticiários, a música, a dança, os “enlatados” da TV, enfim, diversas formas de expressões que se autodenominam artístico-culturais, vemos uma pseudocultura construída sob o marketing da sociedade de consumo. Uma cultura enlatada! Acho que essa é a expressão correta.

Quando Caetano Veloso se referia ao “lixo ocidental” em suas belas canções, ele se referia ao rejeito, à sucata, às sobras de um produção cultural americanizada e europeizada, de forma forçada e, cujo destino final eram as mentes e os corações africanos e latino-americanos. Caetano, Gil, Chico Buarque, Edu lobo, João Bosco, Belchior, dentre outros, chamavam a atenção num movimento pós Tropicália, para os perigos de nos deixarmos engolir por essa contracultura que surgiu da lama gosmenta americanizada e europeizada. Uma cultura que não servia para eles, mas que queriam empurrar para nós, assim como tentaram fazer, recentemente, com seus containers de lixo. Quero deixar claro que defendo a ideia de uma cultura universal, sem fronteiras, enfim, uma cultura para a liberdade. Porém, nunca defendi o acolhimento universal ou localizado de rejeitos da contracultura estrangeira.

Hoje, basta olhar os enlatados da TV, do rádio, das revistas e dos jornais para percebermos a invasão sistemática não da cultura originada simplesmente do “lixo ocidental”, mas advinda do “lixo”, proveniente do “lixo ocidental”, ou seja, “o lixo do lixo ocidental”. Os perigos sobre os quais nos alertavam Chico Buarque e seus amigos estão aí, invadindo, escancaradamente, nossas casas, nossos corações e nossas mentes. Na barbárie da sociedade atual, assistimos à gestação de uma sociedade acéfala e aculturada, reprodutora da contracultura do culto ao consumismo e ao descartável. Presenciamos o nascimento de uma sociedade, na qual os valores culturais se edificam sobre a podridão de um sistema necrosado e decadente, onde o inimigo mortal do homem é o próprio homem.

Mas, será que tudo está perdido? Eu afirmo que não. No meio de toda essa contracultura gosmenta, em meio ao “lixo do lixo ocidental” podemos verificar que existem pessoas que criam a boa música, a boa literatura, a boa pintura, a boa dramaturgia. Em nossa América Latina e, em especial em nosso país, temos legítimos representantes de uma cultura autêntica e que reflete os valores artístico-culturais originais de nosso povo. Mas, para isso é necessário que saibamos garimpar. Esses expoentes culturais de nossa gente estão perdidos no meio do “lixo do lixo ocidental”. É preciso que os encontremos e estendamos-lhes as mãos, antes que eles sejam tragados pelo “buraco negro”, obscuro, sem fim, da contracultura gosmenta americanizada e europeizada. Faz-se urgente que os salvemos do “lixo do lixo ocidental”.

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Prof. Dr. Valter Machado da Fonseca, é Escritor, geógrafo, mestre e doutor em Educação. Pós-doutor em educação do campo, trabalho docente e agroecologia. Pesquisador na área de energia e interações complexas nos ecossistemas terrestres e aquáticos. Autor de vários livros, dentre os quais estão “O GIGANTE DOS PÉS DE BARRO: capitalismo e desenvolvimento sustentável” (2013), “O Sujeito & o Objeto” (2011), “Entre o Ambiente e as Ciências Humanas” (2011), “A Educação Ambiental na escola Pública (2010) e “Valorização e manejo das Águas, dos Solos, das Matas e Florestas (2015). Professor Adjunto do Departamento de Educação da Universidade Federal de Viçosa (DPE/UFV).

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