Era uma vez, histórias como antigamente…

Para uma história ser considerada história, precisa de 5 elementos:

  • Personagens – protagonistas, antagonistas, etc…
  • Tempo/Espaço – quando e onde a historia acontece
  • Estilo – como a história é contada
  • Enredo – como a trama entre os personagens e seu universo se desenvolve
  • Tema – a mensagem central da história

Sem qualquer um desses elementos, uma história não é uma história. Pode ser um anúncio informativo, uma resenha bem montada, um posicionamento de mercado, mas não uma história.

Como humanos, contamos histórias desde que começamos a nos comunicar. Exemplo disso são as pinturas rupestres espalhadas pelo mundo. Instrumentos ilustrativos para a criação de narrativas nas cavernas. Mas por que contamos histórias? Por que perdemos tanto tempo com algo que parece tão banal? A resposta é simples: para passarmos lições que demoramos uma vida inteira para aprender.hist-5

Um exemplo muito claro de narrativas que moldam nossos comportamentos e percepções são os contos de fadas.  Estaríamos provavelmente nos comportando de maneira muito diferente se a Bela jamais tivesse ficado com sua Fera… Ou se o sapatinho de cristal não tivesse calçado perfeitamente o pé de Cinderela. Como David Copperfield, que buscava consolo nos contos de fadas, alguns de nós escutávamos ou líamos essas histórias não só como conforto, mas como uma maneira de atravessar a realidade, de sobreviver em um universo governado por adultos. Em uma utilização da profunda reflexão sobre a leitura da infância, de Arthur Schlensinger Jr, podemos dizer que os contos clássicos “dizem às crianças o que elas inconscientemente sabem – que a natureza humana não é inatamente boa, que o conflito é real, que a vida é severa antes de ser feliz -, e com isso as tranquilizam com relação a seus próprios medos e a seu próprio senso de individualidade”.

Na compreensão da Poética de Aristóteles, temos o conceito de mimesis afastada das concepções de seu mestre na obra platônica. Para a teoria aristotélica da arte poética, a mimesis é também fundamental como a imitação da AÇÃO e da VIDA nas artes narrativas.

Pensando nesse conceito aplicado a histórias, podemos dizer que a arte imita a vida para nos ensinar lições.

Atualmente nosso modo de contar histórias tem mudado, adaptando-se melhor às necessidades de uma nova audiência, a chamada Geração Z, que está entrando no mercado consumidor e de trabalho. Os jovens dessa geração nasceram depois de 1995, não conheceram o mundo sem internet e não diferenciam a vida online da offline. São críticos, dinâmicos, exigentes, decididos, autodidatas, não gostam de hierarquia nem de horários pouco flexíveis.

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Releituras de histórias famosas são comuns desde a Antiguidade. Sejam adaptações mais modernas, com ações, ideias e comportamentos melhores indicados para a moral e as conveniências sociais do tempo em que a história está sendo contada ou meras adequações geográficas que façam mais sentido para a cultura e as características locais da audiência, o processo de inovação em histórias de sucesso não é algo novo. Muitos filmes da Disney são exemplos disso. A versão original de Rapunzel, de Jacob e Wilhelm Grimm, é baseada na lenda de Santa Bárbara, que foi enclausurada em uma torre por seu pai ao recusar propostas de casamento. Rapunzel é uma história que toca em um ponto sensível em culturas que enclausuram jovens, isolando-as ou segregando-as da população masculina, o tipo de coisa que já não possui uma conexão tão forte com a sociedade ocidental atual, muito menos com uma geração que escapa até da própria da realidade com smartphones. Daí surge a releitura “Enrolados” (2010), um longa de animação leve e cômico, com personagens movidos por ideias que fazem mais sentido para as novas geração, como futilidades de beleza, chantagens emocionais, busca por aventura e romances surgidos ao acaso.

A versão história de “Rapunzel” adaptada em “Enrolados” serve de exemplo como uma releitura para as novas gerações. Entretanto, não ilustram os novos moldes participativos e superficiais desejados pela juventude atual.

Em seu último respiro no mercado de ações, o Twitter lançou o Periscope no início de 2015, aplicativo que permite a transmissão de vídeos ao vivo em IOS e Android. Titio Zuckerberg, que não é bobo, lançou o Facebook Live com a mesma finalidade para sua própria plataforma, mudando o algoritmo da rede social, permitindo um acesso muito maior à audiência e quebrando de vez as pernas do Twitter. Zuckerberg usou uma tática muito semelhante de negócios em sua investida contra o Snapchat. Ao não poder comprar a rede social de maior crescimento dos últimos tempos, criou uma ação com a mesma finalidade em outra de suas redes sociais já consolidadas, o Instagram, que agora transmite momentos de seus usuários que desaparecem após 24hr de criação.

Independente da preferência, as redes sociais de hoje oferecem novas maneiras de contarmos histórias que casam perfeitamente com a demanda da Geração Z (e em parte com sua antecessora, a Geração Y). Transmissões digitais ao vivo levam o ineditismo a outro patamar, com enredo sendo contado na visão de um dos personagens do que quer que esteja sendo transmitindo, dando não apenas a sensação da audiência estar na história, mas também a chance de participar dela com seus comentários e opiniões. Já a ideia de histórias descartáveis divididas em miniclipes é a manipulação da FOMO (Fear Of Missing Out; o fenômeno comportamental caracterizado pelo medo de ficar de fora do que está acontecendo) casada com a limitação de tempo perfeita para a retenção de atenção das novas gerações, uma vez que o tempo de gravação de uma ação no Snapchat ou Instagram Stories gire no máximo em torno de 10segs e, de acordo com estudos, a Geração Z se conecta no máximo por 8segs para decidir se o conteúdo deve continuar a ser visto ou não.

Inovadoras, as novas funcionalidades das redes sociais trazem também indagações. Do livro, ao rádio, ao cinema, à televisão, à internet, a finalmente onde nos encontramos, podemos nos perguntar não só que está por vir, mas o que está acontecendo agora. Contar histórias ao vivo escutando a opinião da audiência? Como? Histórias em 10 segundos? Dá tempo de encaixar os 5 elementos narrativos em uma coisa assim?

Apesar das dúvidas e questões parecerem inúmeras, não são elas que dão medo às gerações mais velhas. O que assusta de verdade é a facilidade da juventude ao lidar com essas questões, fazendo parecer que essa geração dominará de forma rápida e ágil o mercado de trabalho. Entretanto, apesar do progresso e dos benefícios trazidos pelo avanço digital, também temos o outro lado da moeda, a superficialidade. É possível ter 5 elementos narrativos em histórias de 10 segundos? Sim, é. Mas a qualidade dos elementos sofrerá as consequências na maior parte das vezes. É possível ter narrativas lineares e estruturadas contadas digitalmente ao vivo e considerando a participação da audiência? Sim, é. Mas o caminho que essas histórias podem tomar podem ser confusos, efêmeros e dúbios, caso falte um roteiro previamente montado e ensaiado.

Apesar desse outro lado da moeda, a audiência não liga para a superficialidade. Basta ver o material produzido por grandes influenciadores digitais de hoje, sejam YouTubers, Instagrammers ou Snapchaters. É a perfeita exemplificação da teoria de Marshall McLuhan, “o meio como mensagem”. Coisas como escovar os dentes, brigar com os pais ou ir para a academia tornam-se hits de audiência. Ou seja, o conteúdo é quase irrelevante. O meio sim é o que importa. É o meio que está mudando as histórias e o modo como elas estão sendo contadas.

E isso nos leva a outra questão: se as histórias que moldaram nosso comportamento atual estão sendo mudadas mediante a demanda de uma nova audiência, como será o comportamento dessa nova audiência no futuro? Isso sim me assusta.

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Stefano Giorgi é publicitário, storyteller, escritor e andarilho nas horas vagas. Tendo morado em diferentes lugares do mundo, atualmente está em São Paulo prestando consultoria e criando histórias para diferentes marcas e agências de publicidade.

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