Anomalisa: uma voz e os efeitos de uma montagem pulsional

Charlie Kaufman é um dos roteiristas que melhor trabalha o tema dos impasses inerentes à alteridade do Outro, ele escreve histórias criativas e inova na forma de contá-las. Basta lembrar alguns de seus filmes: “Quero ser John Malkovich” (1999), “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004) e “Sinédoque Nova York” (2008). Em seu mais recente trabalho, “Anomalisa” (2015), Kaufman em parceria com Duke Johson utilizam a técnica de animação stop – motion (bonecos), algo inédito em sua filmografia.

Inicialmente, o roteiro fora escrito para o teatro, pois ele acreditava que seria impossível ser filmado. A ideia do roteiro surgiu quando Kaufmann leu um artigo numa revista médica, em que psiquiatras comentavam sobre a síndrome de Fregoli, classificada no grupo das síndromes delirantes de identificação. Mas o que mais chamou sua atenção no texto foi a descrição do comportamento das pessoas acometidas por essa patologia. Ou seja, os pacientes acreditam que as pessoas de seu entorno mais próximo são capazes de se disfarçar, transformando suas aparências, gênero, roupas, para se passarem por outras pessoas.
Por que escrever sobre esse filme? Questão difícil de responder de bate pronto, mas no só depois, retroativamente, surge uma primeira ideia, esta relacionada com os efeitos engendrados pela técnica de animação em stop – motion, sobretudo quando se trata de contar uma história para adultos. O espectador tem a impressão de estar num cenário onírico, pois as dimensões temporais e espaciais se aproximam a de um sonho. Em Anomalisa, esse cenário se sustenta por uma narrativa instigante, o que impulsiona o espectador a percorrer certa montagem pulsional. Como isso se daria?

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Ao iniciar o filme, a audiência é sutilmente surpreendida, algo como se fosse a experiência de um unheimlich, os personagens, homens e mulheres, emitem a mesma voz masculina (Tom Nooman), com a exceção da voz do protagonista Michael Stone (David Thewlis). Além disso, o formato dos rostos dos bonecos é parecido, o que os torna estranhamente familiar. Até esse momento inicial, surge uma pergunta óbvia: Por que a voz feminina está suprimida? Cria-se no espectador certo mal-estar, o que o faz aproximar-se, lentamente, como são os movimentos em stop – motion, da angústia vivida pelo protagonista, Michael Stone.
Ele é um escritor de livros motivacionais que ensinam estratégias de como os funcionários das empresas podem se relacionar melhor com os clientes, a fim de aumentar a lucratividade – quando se trata de suas relações sociais, Stone se mostra o oposto do que ensina. Ele é britânico, mora em Los Angeles com a mulher e um filho de nove anos. Convidado a dar uma palestra motivacional, Stone viaja a cidade de Cincinnati, o que também o possibilita a divulgar seu mais recente livro. Hospeda-se num hotel cujo nome é Fregoli.
O filme acontece nos dois dias de permanência de Stone em Cincinnati, a noite de sua chegada ao hotel e o dia seguinte, o da palestra. Essa dimensão temporal é filmada quase que exclusivamente dentro do Fregoli, tendo uma iluminação num tom quase pastel, sombrio, como se retratasse o olhar e a escuta de Stone em relação ao Outro.
À noite, Stone sozinho em seu quarto, mostra-se incomodado. Apresenta certa inquietação motora, anda de um lado para o outro, algo sem palavras, como na angústia. O que se segue na cena são elementos que aludem a tentativa de sair da angústia pela via do ato sexual. Stone convida uma ex – noiva a ir ao hotel. O encontro foi desastroso. Isso porque ele rompera o noivado há dez anos sem dizer uma só palavra, algo que nunca foi esquecido pela moça.
Quando Stone retornava ao quarto, após o encontro desastroso com a ex-noiva, ele escuta uma voz diferente, outra sonoridade, uma voz feminina, o que o impulsiona a procurar o lugar de onde vem o ruído, sai em disparada pelos corredores do Fregoli. O interessante da sequência cênica é que o espectador é convocado, junto com o protagonista, a percorrer os corredores do hotel em busca desse “novo objeto”, que se desprende de dentro do Fregoli, um lugar sombrio das supostas certezas em relação ao Outro. Se até esse momento da narrativa, a câmera acompanhava Stone à distância, agora ela está tremula e enquadrada em close-up, algo pulsa nessa busca. Quando a voz feminina é encontrada, como se fosse um “novo objeto”, o espectador se acomoda na poltrona, aliviado, como se no desprender da voz feminina, alguns significantes fizessem um furo no real, a angústia cede, o que possibilita a Stone situar esse “novo objeto” como causa de um desejo. Há um corte na voz uníssona do Fregoli, como se algo no real pudesse ser nomeado, simbolizado, revestido de significantes.

Stone encontra Lisa (voz de Jennifer Janson Leigh). Ela é operadora de telemarketing – escuta o outro. Veio a Cinncinati assistir à palestra do mestre, diz-se ser leitora de seus livros. Quando ela fala, as palavras parecem fazer rachaduras nos semblantes de Stone, o que o possibilita a olhá-la de outro lugar. Ele pergunta o que lhe aconteceu para ter uma marca na testa, ela responde que houve um acidente que produziu um corte – voz e corte metáforas que a tornam uma mulher desejante, e desejada por Stone. Ele a convida para ir ao quarto. Lisa aceita.

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Entra-se no quarto. A câmera guarda certa distância, como num gesto discreto de quem testemunha a cena. Testemunha-se um ponto de corte na narrativa, pois até esse momento “o dentro do Fregoli” se mostrava um lugar do sombrio, do estranhamento familiar, da angústia, do tamponamento da alteridade do Outro, do uníssono da voz. Agora algo inédito acontece no quarto, como se esse espaço fizesse um furo no “dentro do Fregoli”, constituindo-se como uma borda, um ravinamento por onde se decantasse alguma letra, por onde um desejo fizesse litoral.
Instigada por Stone, Lisa canta um clássico de Cyndi Lauper “Girls Just Wanna Have Fun”, em inglês e em italiano, um canto que precipita nas bordas dos corpos. Stone siderado a olha e a ouve, como se não pudesse conter o desejo. Ele a toca com cuidado, beija-a como se não tivesse tido, até então, um encontro sexual e amoroso. Suspende-se a angústia, para advir um sujeito desejante, disposto ao risco de não saber nada sobre o que lhe impulsiona.
Depois de transarem, eles conversam e surge o assunto sobre as anomalias que há no mundo.

Lisa diz num tom de humor, que ela é uma “anomalia”, pois tem uma marca na testa, aparelho nos dentes, e se pergunta como ele iria gostar dela com tudo isso, ele responde com o mesmo tom: “Você é uma anomalisa”. Os dois desandam a rir.

Depois dessa sequência, o que o espectador encontra é um desenlace recheado de infortúnios, assim como é uma narrativa onírica, oposto a um devaneio que suporia os personagens “felizes para sempre”.
O que torna esse filme simples em especial é que sua história contada em stop – motion coloca os bonecos próximos do real, como se um adulto estivesse num sonho no mesmo lugar que eles, por assim dizer “bonecos-sujeitos” submetidos ao discurso do Outro, ao discurso do Inconsciente. Desse modo o espectador, nesse cenário onírico, se implica numa trajetória pulsional (olhar e voz) do protagonista, vivendo o estranho, a angústia, e, sobretudo, os lampejos do desejo. Mais uma vez, Kaufmann trata dos impasses inerentes à alteridade do Outro de forma inovadora, ainda bem, pois tece um alento na cultura às contradições de seu mal estar.

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Leonardo Beni Tkacz é Psicanalista 

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