O grito ensurdecedor da cidadania

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Helene Weigel em “Mãe Coragem e seus filhos” (Dir. W. Staudte, RDA, 1946)

As eleições municipais de 2016 me fizeram lembrar da adaptação cinematográfica da obra teatral de Bertolt Brecht, “Mãe coragem e seus filhos” (1941), dirigida por Wolfgang Staudte na Alemanha Oriental em 1946. A protagonista, interpretada por Helene Weigel, entra em um profundo desespero ao testemunhar a morte de um dos seus filhos pela arma que ela recuperou e comercializou. Entorpecida pelo desespero, a mãe emite um grito sem som – achei que ela tinha gritado tão alto que pensei ter ficado surdo ou queimado a caixa de som.

Os resultados divulgados pelo Superior Tribunal Eleitoral sobre os número de votos nulos e abstenções nas eleições de 2016, o maior registrado na história de nossa democracia, foi um desses gritos ensurdecedores. Na cidade de São Paulo, onde os meios de comunicação alinhados com a direita comemoram a vitória em primeiro turno do candidato tucano João Dória Júnior (PSDB), ignora-se o fato dele ter perdido para os votos nulos e abstenções – fenômeno observado somente pela imprensa estrangeira.

Não ocorreu um avanço do eleitorado de direita, como profetiza os jornalistas maliciosos e os intelectuais desonestos, pois o número de votos de Dória pouco diferem dos obtidos pelo candidato derrotado José Serra (PSDB) nas eleições municipais de 2012. O que aconteceu em São Paulo, e em muitas outras regiões do Brasil, foi a mensagem de insatisfação dos eleitores com todos os partidos de esquerda – fenômenos tão ou mais expressivos ocorreram em Porto Alegre (RS), Rio de Janeiro (RJ), Porto Velho (RO), Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG) e em outras capitais onde os votos nulos e abstenções foram superiores ao primeiro e segundo colocados.

Esses cidadãos estão cansado das promessas vazias, da falta de representatividade nos governos petistas, das alianças corruptas em nome da governabilidade, do aumento da distância dos partidos políticos e seus eleitores.

Eles gritam por mudanças, por mais humanidade frente a barbárie social.

A beleza em se revisitar uma obra prima como “Mãe Coragem” é a releitura de suas críticas ao fascismo, nazismo e ao egoísmo destrutivo do capitalismo –  movimentos que infelizmente voltaram à moda. Uma situação de guerra que revela as dificuldades de se viver sem esperança, direitos humanos e cidadania. O filme é um belíssimo recurso pedagógico para analisarmos nossa conjuntura.

arthur-foto-de-perfil-03Prof. Dr. Arthur Meucci
Professor da Universidade Federal de Viçosa, aonde coordena o projeto de extensão Cine Filosófico, dedicado a formação transdisciplinar de professores em Filosofia, Linguagens e Ciências por meio dos filmes.
Bacharel e Mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo.
Doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie.


 

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