(IN)Publicáveis – Manifesto Anarco-futurista Russo

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HaHaHaHaHohoHoho

Rolem pelas ruas.

Quem ainda é viçoso e jovem e não desumanizado, às ruas!

O pançudo morteiro das risadas desceu à praça, ébrio de alegria. O riso e o amor juntam-se com a tristeza e o ódio, abraçados um ao outro na paixão convulsa e poderosa dos prazeres bestiais. Viva a psicologia dos contrastes.Espíritos intoxicados e ardentes alçaram a bandeira flamejante da revolução intelectual.Morte às criaturas da rotina, aos filisteus, aos que sofrem de gota!Quebrem com um barulho ensurdecedor a copa das tempestades vingadoras!Derrubem as Igrejas e os seus aliados, os museus! Façam explodir em mil pedacinhos os frágeis ídolos das civilizações!

Ei, vocês, arquitetos decadentes do sarcófago do pensamento, sentinelas do cemitério universal dos livros: saiam do caminho! Viemos para expulsá-los!

Que seja sepultado tudo o que é velho, que sejam queimados na labareda do vulcão do gênio criativo os arquivos empoeirados! Diante das cinzas esvoaçantes da devastação mundial, diante das telas chamuscadas das pinturas pomposas, diante dos grandes pançudos volumes dos clássicos, já queimados, marchamos nós – os anarco-futuristas!

Desfraldaremos orgulhosos o estandarte da anarquia na grande planície devastada de nossa terra! Escrever não tem valor algum! Não há mercado para a literatura! Não há prosões, limites, para a criatividade subjetiva! Tudo é permitido! Nada é proibido! Os filhos da natureza recebem extasiados de alegria o cavalheiresco beijo dourado do sol e o opulento ventre nu e lascivo da terra. Os filhos da natureza, desabrochando da terra negra, encarnam as paixões dos corpos nus e luxuriosos. Estão todos comprimidos numa única copa geradora, grávida!Milhares de braços e pernas se trançam em um único maço sufocante e exausto!A pele se inflama de cálidas, insaciáveis, pungentes carícias. Os dentes afundam com ódio na carne tépida e suculenta dos amantes! Olhos arregalados, atônitos, seguem a ardente e impregnante dança da luxúria! Tudo é estranho, desinibido, elementar. A convulsão, a carne, a vida, a morte, tudo! Tudo! Esta é a poesia do nosso amor!Poderosos, imortais e terríveis somos no nosso amor! O vento do norte se enfurece na cabeça dos filhos da natureza. Apareceu algo terrificante – um vampiro da tristeza! Perdição – o mundo está morrendo! Tome-o! Mate-o! Não, espere! Gritos frenéticos, penetrantes, laceram no ar, espera! A tristeza! Negras, bocejantes úlceras de agonia cobrem o vulto pálido e amedrontado do céu.

A terra treme de pavor sob as pancadas poderosas e plenas de ódios de seus filhos! Oh, malditas, desprezíveis, coisas! Laceram a carne tenra e opulenta e sepultam a própria tristeza florescente e faminta no rio de sangue e nas frescas feridas de seu corpo.O mundo está morrendo! Ah! Ah! Ah! Gritam milhões de toxinas.Ah! Ah! Ah! Brama o gigantesco canhão do alarme! Destruição! Caos! Tristeza!O mundo está morrendo! Esta é a poesia da nossa tristeza! Não temos inibições! O lamentoso sentimentalismo dos humanistas não é pra nós. Queremos, ao invés, criar a triunfante irmandade intelectual dos povos, forjada com a lógica irônica das contradições, do ódio e do amor.Defenderemos com os dentes a nossa união livre da África aos dois pólos, contra toda amizade sentimental. Tudo nos pertence! Além de nós nada existe senão a morte!

Alçando a bandeira negra da rebelião, chamamos juntos todos os homens que não estão desumanizados e imbecilizados pelo hálito maléfico da civilização!

Todos à rua! Avante!Destruam! Matem!

Só a morte não admite retorno!Extingam tudo o que é velho! O trovão, o raio, os elementos: tudo nos pertence! Avante! Viva a revolução intelectual internacional! Livre passagem aos anarco-futuristas, aos anarco-hiperbóreos e aos neoniilistas!

Morte à civilização mundial!

Kharkov, Março de 1919.

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