A dor e a delícia de se deixar o que se foi para quem se foi

cherub-1130585_1280Não há como passar pelo mundo imune às marcas da perda. Logo, o luto é universal e tem uma função psíquica importante. Ele põe em marcha um processo de desligamento lento e gradual do objeto perdido, lançando-nos para um estado homólogo ao de uma ferida aberta, sob a forma de acessos intermitentes de aflição, amargura e sofrimento. A dor do luto decorre da dificuldade da energia psíquica investida no objeto de se desapegar de posições prazerosas antes conhecidas. Não à toa, diz Freud, no seu ensaio Luto e melancolia (1915), que não se perde, no luto, apenas o ser amado, perde-se também, e talvez principalmente, a representação psíquica que o enlutado desempenhava para ele. Pense no que você deixaria de representar para aquilo que perdeu.

Sendo assim, o luto, de modo geral, implica sofrimento, em maior ou menor grau, mas sofrimento; pois não há como sair incólume de uma ruptura ocasionada pelas intempéries da vida. A psicanálise, por sua vez, como dispositivo ético de transformação, não visa livrar o sujeito do sofrimento, como assim reza o discurso moralista da psiquiatria, que oferta felicidade em comprimidos e diagnósticos prêt-à-porter. O que a psicanálise pode oferecer, é uma saída frente ao sofrimento desnecessário, neurótico; jamais aquele relativo à perda de um ente querido, por exemplo. Todo trabalho de luto é fundamentalmente necessário, sendo o seu oposto, isto é, uma perda mal elaborada ou negada, um problema que pode desencadear sofrimentos sintomáticos em função da sua não ressignificação. O luto vivenciado liberta o enlutado para voltar a viver, não havendo tempo pré-determinado para sua conclusão, tese defendida pelo mais novo manual de psiquiatria, que estabelece um prazo de duas semanas para seu término.

No luto, a realidade presentifica a ausência do objeto perdido a todo instante, seja pela via daquela música que traz consigo uma lembrança, que passa a tocar como se fosse a única na rádio, seja pela via do vazio deixado nos pequenos hábitos do dia a dia, como aquela mensagem que não chega, ou a companhia que falta, dentre outras bordoadas da realidade que vocifera em alto e bom som a inexistência do ser amado.

Ao fazer um contraponto entre o luto e a melancolia, Freud destaca diferenças e semelhanças que os unem e os separam. A atividade psíquica realizada pelo enlutado, o torna inativo para quaisquer outros investimentos e, aos poucos, a ausência do objeto passa a impor o processo de desligamento, liberando o eu para novos investimentos substitutos.

A melancolia, por sua vez, também se configura como um estado penoso para a alma, com o agravante do fato de que ao contrário do enlutado, — mesmo que no afeto do luto o sujeito interprete o mundo como vazio e pobre, — não há um desinteresse tão acentuado pelo mundo externo. O melancólico encontra-se com as faculdades de exploração do mundo externo inibidas, não conseguindo, inclusive, amar. Se no luto o mundo torna-se pobre e vazio, na melancolia, os estados de pobreza e vazio internos recaem sobre o eu.

A diferença fundamental entre um fenômeno e outro reside no fato de que no luto, embora exista extrema semelhança com o quadro sintomatológico da melancolia, o que os distingue, gira em torno do rebaixamento da autoestima que, no luto, mantém-se inalterado e, na melancolia, alterado. Ou seja, o rebaixamento do sentimento de si na melancolia se expressa pelo viés das autorecriminações e impropérios dirigidos ao eu, podendo levar, em casos graves, o melancólico a desenvolver delírios de punição e ideações suicidas. Por esse motivo, ao atacar a si mesmo, o melancólico ataca o outro — alguém das suas relações com quem mantinha um relacionamento marcado por conflitos — e que perdera por morte, separação abrupta ou definitiva. Eis aí um aspecto que revela a fina escuta de Freud ao perceber que a lamentação que especifica o discurso do melancólico está endereçada a um outro impossível de ser identificado. Ele não só desconhece a natureza do objeto perdido, mas também sua origem.

Se no luto o processo de separação é superado com o tempo às expensas do sofrimento e da saudade, na melancolia, a perda não se circunscreve na medida em que o próprio eu se torna o objeto perdido, de modo a não ter que se confrontar com a separação. Ou seja, ao contrário do melancólico, o enlutado dispõe de recursos para passar pelo processo de desligamento normal do objeto perdido e redirecionar parte da energia psíquica depositada no objeto em outras funções e objetos substitutos.A autoacusação manifesta na melancolia é, na verdade, uma heteroacusação, pois visa atacar o objeto perdido da identificação incorporado ao eu, podendo levar, inclusive, o melancólico ao paroxismo de querer destruir inconscientemente o fantasma do objeto odiado que recobriu o seu eu sem se dar conta de que com isso destrói a si mesmo.

A satisfação sádica de querer aviltar o próprio eu organiza-se a partir de uma especificidade cruel da consciência moral. O sadismo característico do supereu, chamado por Freud ainda de instância crítica, nesse trabalho, não comparece apenas no complexo melancólico, visto que também se manifesta na neurose obsessiva pelo caráter cruel e implacável do masoquismo moral. Nada se compara, apesar disso, à brutalidade pontiaguda dos imperativos dessa instância crítica na melancolia, que liberta o gozo da pulsão de morte das barreiras impostas pelas pulsões de vida, marcando uma desagregação entre Eros e Tânatos.

De acordo com Freud, o enlutado conhece a natureza da sua perda, ou seja, ele sabe quem ou o que perdeu, ao contrário do melancólico que, embora saiba que perdeu, não sabe o que exatamente perdeu.

A lógica da perda referente ao melancólico o põe a trabalhar numa marcha análoga ao luto, mecanismo que justifica o estado de alheamento ao mundo externo, levando-o a retroceder para dentro de si mesmo. No entanto, embora também haja retraimento da libido no enlutado para o eu, o que não há, sendo esta uma outra característica da patologia da melancolia, é a identificação narcísica com o objeto perdido e odiado

Freud destaca três premissas a partir das quais a melancolia se manifesta: perda do objeto, ambivalência entre amor e ódio, e regressão da libido para o eu. Esta identificação com o objeto perdido na melancolia gera movimentos de amor e ódio direcionados ao próprio eu. Enquanto uma corrente libidinal tenta manter-se conectada ao objeto, a outra, por sua vez, tenta desligar-se dele. O polo oposto do complexo melancólico, isto é, a mania, atesta isso, já que o eu passa de um estado no qual é subjugado pela instância crítica e, — por conseguinte, vence temporariamente os imperativos de agressividade que o obrigam a se identificar como objeto perdido. Trata-se de um momento de triunfo do eu que se liberta da opressão do complexo melancólico; fato que gera um quadro de euforia ao levar o sujeito a expressões muito exageradas de agitação e exaltação de si.  Há um entrave entre as necessidades do sujeito de querer se desligar do objeto e, ao mesmo tempo, manter-se ligado a ele, loucura cíclica essa que levou a psiquiatria a cunhar o termo de depressão bipolar.

O estado de mania muitas vezes pode ser mal interpretado pelo melancólico como sinal de cura, tamanho o alívio sentido como consequência da superação provisória dos ataques infligidos ao eu pela instância crítica. No entanto, quando o retorno para o polo melancólico se manifesta, o ato de liberdade e de superação do quadro da mania são debitados na conta da dor e do sofrimento, que se potencializam como resposta punitiva à ousadia da vitória temporária.

Por fim, cabe ressaltar para o analista que conduz este tipo de caso um alerta, ou seja, o de não interpretar o quadro da mania como sinal de cura, assim como o melancólico o faz ao desenvolver quadros de entusiasmo e exaltação. Há muitas formas de viver uma perda. Não há como não perder e como não sofrer com as tormentas da vida. Como cada um lida com a dor e a delícia de deixar de ser o que se foi para quem se foi, é uma questão.

Rodrigo de Souza – Psicólogo, Psicanalista, pós-graduado em Psicologia imageHospitalar pela PUC-SP e Membro Pesquisador do Laboratório de Psicanálise, Saúde e Instituição (Lab-PSI) do IP-USP. Docente do curso de formação em Psicanálise no Instituto Latino-americano de Psicanálise Contemporânea – ILPC.

 

Revista Kultur – 02/2016

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