On the road: jornada e experiência andante

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imageNessa edição, a partir da proposta de pensar um pouco sobre diferenças culturais, convidamos o publicitário Stefano Giorgi para contar um pouco de sua experiência na estrada. Stefano se graduou publicitário pela ESPM-SP (Escola Superior de Propaganda e Marketing), tradicional faculdade no âmago paulistano. Oriundo de uma família paulistana, trabalhava em uma agência de publicidade e se via dentro de uma rotina adequada ao seu espectro social; Foi quando resolveu fazer uma mudança radical em seu way of life: colocou os dois pés na estrada e viajou sem dinheiro, de Roma a Jerusalém pegando caronas. Uma peregrinação sem a obrigação de uma significação exclusivamente religiosa; Stefano se colocou em uma multiplicidade cultural que estarrece os ouvidos mais conservadores. Essa quebra fora interpretada como loucura por alguns de seus amigos. De fato, a ideia de se colocar na estrada fora conditio sine qua non para artistas, filósofos e escritores encontrarem sua própria identidade. Somente no contato com o outro podemos entender um pouco do que e de quem somos. E sob essa concepção propomos algumas perguntas para o Stefano e ele respondeu da forma mais aberta possível.
Confiram as fotos e essa rica conversa que tivemos com o publicitário Stefano Giorgi:

Kultur – Você iniciou esse percurso com um roteiro?

Stefano – Meio que sim e meio que não. Eu sabia o meu começo e o meu final, e alguns destinos pelo meio do caminho. Mas a maioria dos lugares por onde passei foram por improviso.
Parti em busca de Deus e de mim mesmo. Comecei minha viagem em Roma pela sua importância histórica e religiosa, além de ser o berço dos meus ancestrais. E escolhi como destino final Jerusalém pelo fato das três grandes religiões ocidentais convergirem naquela cidade.
Queria fazer um tipo de cruzada. Minha bandeira: minha fé nas pessoas e a minha recém descoberta liberdade; meu inimigo: eu mesmo e meus preconceitos.
Para fazer esse trajeto eu tinha milhares de caminhos. Estudei muitas vezes os mapas e sites de viagem. Mas o que me fazia tomar minhas decisões eram geralmente pessoas que eu encontrava no meio do caminho. Eu acabei na Albania, por exemplo, por causa de uma menina que conheci quando vivi numa comunidade anarquista em um castelo medieval na Toscana. Chipre foi mais ou menos por uma causa parecida. Um anfitrião grego chamado Sócrates (que ironia) que me sugeriu essa rota.

Acho que uma jornada como a que eu fiz NÃO pode ser definida pelo meu destino final, mas sim pelo caminho que percorri.

Kultur – qual a maior dificuldade que encarou até agora?
Eu viajei sem dinheiro, literalmente. E dinheiro é muito útil para comprar coisas como um prato de comida ou uma cama quente de hotel. A fome e o frio são duas coisas muito difíceis de serem encaradas. Mas não posso dizer que nenhum dos dois foi a minha maior dificuldade.
A barreira da comunicação também é algo complicado, especialmente em países com alfabetos completamente diferentes. Mesmo assim, me virei muito bem com mímicas e Google Tradutor.
Minha pior barreira foi a solidão.
Muitas pessoas gostam de ficar sozinhas, isoladas em algum ambiente de meditação ou coisa do tipo. Não é desse tipo de solidão que estou falando. Eu me refiro a algo um pouco mais profundo. Quando eu estava cabeludo, barbudo, com uma mochila nas costas e ninguém nem sequer olhava na minha cara. Eu virei um pária, vivendo na margem da sociedade. Estar numa praia deserta sozinho em um dia de sol é uma coisa que eu aprecio e que muita gente deve gostar. Estar numa estrada nevando, com o sol se pondo, sem comida ou abrigo, no meio do nada, implorando em vão para algum carro parar e te levar na direção que vai, isso é outra história… Especialmente porque em muitos lugares eles não param, e ai você percebe o quão só e insignificante você pode ser.
É essa solidão que foi minha pior barreira. Saber que estava sozinho e que não poderia contar com ninguém.

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Kultur – qual a cultura mais diferente com a qual você se deparou?

É complicado dizer. A cultura turca muçulmana foi realmente a que me chocou mais no começo. Mulheres com o véu, as tradições nas mesquitas, o papel do homem em casa… Entretanto, com o tempo, comecei a notar diversas similaridades com o povo brasileiro, especialmente em coisas como carinho, família e relacionamentos amorosos por exemplo. O homem turco é muito carinhoso e hospitaleiro; a mulher é muito dedicada à família e vaidosa; e os relacionamentos entre os jovens são muito parecidos com os do Brasil, com mensagens de textos, demonstrações públicas de afeto, encontros e brigas esporádicas.
Aproveitando que falei de relacionamentos amorosos, vou falar de outro choque cultural pelo qual passei e continuo passando. Estou meio que namorando com uma inglesa, e as coisas são muito diferentes.Em especial relevantes a ciúmes e demonstrações públicas de afeto. O povo inglês não tem praticamente nenhuma dessas duas coisas. Fui em uma balada junto com minha namorada onde estavam outras três meninas com as quais eu já havia me relacionado.. Ela não sentiu o menor ciúme e até ficou amiga de duas, o que eu nunca pensei que poderia acontecer no Brasil. Em compensação, para andar de mãos dadas ou beijar em público é como se fosse uma coisa de outro mundo…
Chega a ser engraçado pensar que se eu pudesse escolher, escolheria namorar uma turca muçulmana do que uma inglesa, que em tese vem de uma cultura massificada e globalizada que eu tinha um contato muito maior no Brasil.
Poderia fazer comentários sobre o modo que os albaneses lidam com o lixo, ou sobre os festivais judaicos em Israel, ou até mesmo como é beber com dinamarqueses. Mas o que mais definiu para mim essa questão da diferença cultural foi a prática mesmo, em questões pontuais. Então, atual e pessoalmente, digo que a cultura mais diferente com a qual me deparei é a inglesa nos relacionamentos afetivos.

Kultur – Se pudesse dar uma dica para quem pretende iniciar uma jornada qual seria?

Vai. E se der medo, vai com medo mesmo.
Eu quase morri congelado nas montanhas da Toscana, em busca de um castelo medieval que abrigava uma comunidade anarquista. Eu fui preso pulando trens na Itália, quando estava a caminho da balsa para a Albania. Cai de um penhasco na Capadócia para invadir um museu a céu aberto, e invadi o museu errado. Quase fui morto por contrabandistas de ouro sírios no sul da Turquia, exatamente por causa de ouro. Curti uma balada a duas horas de distancia de uma cidade tomada pelo ISIS no Líbano. E finalmente cheguei na minha terra prometida onde acabaria minha viagem.

Eu nao encontrei Deus e nem a mim mesmo em JERUSALÉM. Eu encontrei os dois na estrada. E acho que a estrada é o melhor destino para quem está perdido ou em busca de alguma coisa.

Kultur – valeu Stefano! Boa sorte na sua estrada!

entrevista: Stefano Giorgi
Imagens: Stefano Giorgi
Revista Digital Kultur – 02 edição – novembro de 2015

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