Entre o amor e o desejo à luz da psicanálise

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Ao adotar o conceito de Eros como um princípio de atração, ou, dito de outro modo, como pulsão de vida, na qualidade daquilo que mantém unidos os seres vivos, Freud introduziu nele a sexualidade, tão cara ao homem e à civilização.
Em “Sobre o narcisismo: uma introdução”, de 1914, Freud destacou dois destinos da identificação amorosa: o narcísico e o anaclítico. Amar com base na identificação amorosa narcísica significa amar a si próprio no outro a partir do que se é, do que se foi ou do que se gostaria de ser. Quando o eixo da identificação amorosa é anaclítico, busca-se no outro características que remontam à parentalidade da primeira infância. Ambas as identificações são intercambiáveis, embora haja prevalência de uma sobre a outra. Vale lembrar que a identificação não se prende ao gênero; pois é possível amar o fantasma do pai a partir da mulher e o fantasma da mãe a partir do homem. Não havendo o registro da contradição no inconsciente, esses fatores dependem dos traços que o objeto da escolha amorosa carrega dentro de si e do tipo de fantasia que o sujeito constrói a respeito dele. É facilmente identificável, por exemplo, no núcleo de relações heterossexuais, identificações inconscientes homossexuais e vice-versa.
O modo como os neuróticos se situam no amor, reproduz, portanto, algumas condições que são construídas no Complexo de Édipo. Em suas contribuições à Psicologia do amor, no artigo II “Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor”, Freud (1912/1969) evidencia características que determinam a escolha da pessoa amada, destacando possibilidades e impossibilidades, no que diz respeito à forma particularmente masculina de amar.
Segundo Freud, a fluidez de uma relação amorosa normal requer o equilíbrio entre duas correntes: as afetivas e as eróticas. As afetivas remontam traços da primeira infância, quando elas estão investidas nos familiares e, em especial, na mãe ou na irmã. Desde os primórdios da infância, as correntes afetivas contêm dentro de si componentes das correntes eróticas. Assim, as correntes afetivas correspondem à primeira escolha de objeto de amor da criança, fato que a leva a reproduzir, ao longo da vida, o mesmo protótipo a partir do qual aprendeu a amar.
Com o advento da puberdade, os componentes das correntes eróticas que antes estavam ligados às correntes afetivas, precisam se desvincular do primeiro objeto de amor, de modo a reinvesti-los em objetos substitutivos. Ou seja, trata-se de seguir os caminhos determinados pela interdição do incesto ao exigir que a criança aprenda a amar para além da complementariedade narcísica com a mãe. No entanto, a escolha dos novos objetos de amor resvala no modelo infantil.
Segundo Freud (1912/1969), – existe apenas um pequeno número de pessoas capazes de combinar adequadamente as correntes afetivas e eróticas, – sem incorrerem em impotência psíquica. Isto é, frente à mulher digna de seu amor e respeito, ocorre uma restrição dos componentes perversos e eróticos da atividade sexual, que só conseguem se manifestar no encontro com outra mulher inferior do ponto de vista ético, estético, moral e social.
É somente a partir do abandono da mãe como objeto de amor que o sujeito poderá dar livre-vazão às correntes afetivas e eróticas na puberdade, cujo desafio residirá na combinação harmoniosa entre as duas correntes.
Para amar o objeto de satisfação sexual, os traços da mãe ou daquela que ocupou esta função, serão reeditados, não cabendo ao novo objeto ocupar o mesmo lugar idealizado e sagrado. Portanto, depreciar o objeto visa não só apagar as características que o remetem à mãe com quem o sujeito aprendeu a amar como, também, escoar os conteúdos agressivos equivalentes aos conteúdos eróticos. Curtos-circuitos ocorrem no desejo e na relação quando os papéis são invertidos e reproduzidos de acordo com o modelo primário.
Esta dinâmica do desejo exercida pela depreciação na esfera do amor demonstra, de acordo com Freud, quando levada às últimas consequências, um quadro de impotência psíquica, em razão da impossibilidade da combinação entre as correntes eróticas e afetivas investidas no mesmo objeto. Os homens governados por esse conflito quando amam não desejam e, quando desejam, não podem amar.
A meretriz, por exemplo, sempre salvou casamentos ao cumprir a função de ocupar o lugar do objeto depreciado na civilização a serviço da satisfação irrestrita das correntes eróticas e perversas.

O termo “sexo papai e mamãe”, socialmente convencionado e definido pela relação sexual morna e rotineira, denuncia as origens mais secretas de nossas fantasias.

Quando as relações amorosas se iniciam e carecem do amor em função da escassez do tempo, verifica-se uma maior manifestação dos impulsos eróticos bem como dos aspectos selvagens do sexo. A combinação entre amor e desejo é sempre delicada, principalmente quando a mulher decai da posição de mulher e assume o papel de mãe.
O excesso de amor somado ao papel de mãe adotado na relação pode suprimir e deslocar o desejo sexual. Com isso, cria-se a possibilidade do sujeito recorrer a outro objeto que não seja passível de investimento amoroso. Desta forma, pela via da depreciação do outro, as correntes eróticas podem se desamarrar do primado das correntes afetivas que antes estavam inibidas pelo fantasma do incesto que a mulher amada atualiza.
Dito de outro modo observa-se, no interior das relações amorosas, o quanto uma relação sexual ganha em termos de intensidade e lascívia, logo após um desentendimento acarretado de briga; desamarrando, assim, as correntes eróticas e agressivas.
A psicanálise demonstra, diz Freud, o quanto a repressão dos impulsos amorosos do objeto original cria, no homem, uma inconstância no amor e uma necessidade infindável de trocar de objeto.

O conflito entre amor e desejo apresenta-se com frequência na clínica psicanalítica e, ao fim e ao cabo, atesta a impossibilidade da pulsão sexual produzir satisfação completa, sempre aquém daquela vivida nos primórdios do bebê com a mãe.

 

imageRodrigo de Souza -Psicólogo, Psicanalista, pós-graduado em Psicologia Hospitalar pela PUC-SP e Membro Pesquisador do Laboratório de Psicanálise, Saúde e Instituição (Lab-PSI) do IP-USP. Docente do curso de formação em Psicanálise no Instituto Latino-americano de Psicanálise Contemporânea – ILPC.

 

 

Bibliografia:
FREUD, S. Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos. (Um tipo de escolha de objeto feita pelos homens. Contribuições à psicologia do amor I). In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago editora, 1969.
______ Sobre o narcisismo: uma introdução, 1914. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago editora, 1969.

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