Entrevista – Toni Pires

toniantartidaPara contemplar uma primeira edição que conta com a proposição de refletir sobre a imagem e sua semântica na contemporaneidade, convidamos um dos papas da fotografia e do fotojornalismo no Brasil para falar um pouco de seu trabalho: Toni Pires aceitou o convite, e com um percurso consagrado pelos mais diversos prêmios da fotografia, como IPA, New York Photo Festival e o Premio Esso pelo belíssimo e corajoso trabalho realizado na Antártida, o fotógrafo, que fora Editor Chefe de fotografia da Folha de São Paulo, nos emprestou algumas palavras. Recebemos Toni no espaço Kultur, e com uma serenidade didática, ele nos ofereceu uma belíssima aula sobre imagem e fotografia. Confira:

LG – Toni, se você pudesse comentar um pouquinho, além da biografia, falar por exemplo: se você se recorda da primeira vez que você viu uma fotografia, ou que você viu um traço, e que você falou: é isso que eu vou querer ser, esse vai ser o meu ideal (…).

Toni – Engraçado que eu sempre brinco comigo mesmo, numa entrevista, quando você trabalha em áreas, bom (…) passeia pelo lado artístico, vamos falar assim. Normalmente a pessoa sempre tem uma história pitoresca: ganhei a minha primeira câmera do meu avô aos nove anos e eu tive muito contato com fotografia na minha infância, meu avô era um fotógrafo amador, gostava, me deu uma câmera tal, mas eu nunca tive uma paixão, não dá para eu fazer essa cena. O que mexeu muito comigo (…) aonde foi, onde achei que a fotografia podia ser a minha linguagem: eu já era um jovem, terminei a faculdade de economia e fui fazer jornalismo. Por isso, porque eu fui fazer jornalismo porque eu queria ser um contador de histórias visuais, o mundo da economia me saturou, falei não é isso que eu quero, fiz por obrigação, ter uma profissão que a família achasse ok (…) Mas eu queria conhecer o mundo, e eu pensava comigo, tudo bem, mas conhecer o mundo para quê? Por quê? Por que esse egoísmo de conhecer o mundo? Como que eu vou devolver um pouco disso que eu vou conhecer? E me veio (…) eu conheci alguns trabalhos de alguns fotógrafos que faziam isso. Era um interlocutor até determinado ponto, contava como vivia aqui, contava como vivia ali, e é isso que eu quero ser. Eu quero ser um contador de histórias visuais, quero andar o mundo conhecendo gente, culturas diferentes e divulgando isso.

Acho que é a forma mais fácil de se aceitar a diferença é conhecendo minimamente a diferença.

Então tenho essa pretensão de ajudar a diminuir as diferenças. É um desafio muito louco, nós como fotógrafos, eu como fotógrafo, quero chegar num lugar e interferir o mínimo possível […]E esse é o grande desafio: do quanto você interfere e o quanto não. Porque a sua ausência não pode ser total, porque se não é pegar um framme da câmera da CET, a gente fala que é a câmera de segurança.

Você precisa ser o atravessador, mas o quanto desse atravessador interfere ou não é o que acho que é o grande desafio de se contar uma boa história.

O quanto você consegue pôr você ali, pôr o seu melhor ali, tentando tirar o máximo dos seus preconceitos, seus conceitos. Claro, você é você e tem que passar por você. Mas deixar passar pelo teu melhor lado, esse é um grande desafio do contar histórias com a fotografia, o “aproximar mundos”. Eu vejo isso. É Aproximar mundos. No momento de superprodução de imagens, todo mundo fotografa tudo, toda hora, todo instante, esse é um grande desafio de fazer imagens que toquem as pessoas. Eu sempre digo: fotografia tem que ter alma, fotografia tem que incomodar de alguma forma. Ela tem que fazer você parar e refletir, para o bem ou para o mal. E isto também é um desafio, para que você não busque imagens caricatas, chocantes, só pelo choque, faz com que você tenha que ter um trabalho muito forte de percepção, de contato com a outra cultura, com a outra pessoa, para que vocês possa, ao que se diziam os antigos, os muçulmanos dizem até hoje: roubar algo da pessoa, roubar um pouquinho daquele pedaço. Acho que é um grande desafio.

LG – Para os povos, “arcaicos”, existe uma ideia imanente que concebe o retrato e até a fotografia como algo que aprisiona a alma…

TP  – Acho que no fundo é um pouco isso mesmo. Eu costumo sempre dizer, “ah, aquela fotografia é bonita, é perfeita tecnicamente, mas ela não tem alma” Nesse sentido que eu acho que o meu papel quando estou na China, eu tenho que conversar minimamente, tenho que entender minimamente, tenho que comer a comida deles, tenho que beber a bebida deles para que eles se entreguem minimamente pra mim. Não posso ser só um visitante, vira turista mesmo.

tonichinaLG – Você está falando da China e fala de outras culturas, de minimizar as diferenças, incluindo a China. Quais outras experiências você se recorda de alguma quebra cultural ou diferença cultural que te estarreceu demais?

TP – O mais forte na minha carreira toda, por incrível que pareça, foi num lugar onde não tinha ninguém que foi na Antártida no polo. Ali a minha relação com a vida mudou, a minha relação com as forças da vida mudaram. E foi o lugar mais distinto que eu conheci na vida. Porque ali não tem querer, não tem poder, não tem nada. Existe uma ordem básica ali: a ordem da natureza. Passei por um acampamento base, onde na época tinham alguns alpinistas, e eram alpinistas noruegueses, e tinha um príncipe ali. E na época comentamos isso: se você é príncipe, se você é milionário, se você é pobre, não interessa o que você seja. Você estando ali você só segue uma coisa: a natureza. Se ela disse que você pode sair, você sai. Se ela disser que não pode sair, você não sai. Se você desobedecer você não volta. Essa grandiosidade da vida eu nunca tinha percebido. E essa pequenez do ser humano: você não é nada, sabe? E ali o rico, pobre, o cara é alpinista, já rodou o mundo inteiro, mas ali ele está tão frágil quanto eu. E ao mesmo tempo estamos tão fortes juntos ali. Foi o lugar mais importante pra mim como profissional, porque mexeu, foi um trabalho muito gratificante, foi um trabalho premiado, mas acima de tudo o que mais mexeu comigo foi esse trabalho pessoal, de enxergar a vida de uma maneira diferente. Ser menos pretensioso. Mas sempre qualquer lugar que eu vou, pra mim, é uma diferença prazerosa, quanto mais diferente, mais eu gosto.

LG – Você tinha me falado da China numa conversa nossa sobre esses choques, ou mesmo a tua experiência na China de você ficar estarrecido diante da total diferença (…) tem mais alguma recordação que, por exemplo, quando eu digo isso, alguma imagem vem à sua cabeça?

TP – Vem uma imagem de um local muito mais próximo. Eu trabalhei algum tempo com jornalismo popular, jornalismo popular que trabalha com a periferia. E esse acesso às periferias de São Paulo e Rio de Janeiro foram marcantes demais na minha vida. Lidar com pessoas tão próximas que podem enxergar um mundo tão diferente e como ações tão parecidas tem efeitos tão distintos numa mesma sociedade, tão próxima. Isso sempre foi muito marcante para mim. Mas de todos os lugares que eu passei pelo mundo com a minha fotografia, a China foi o lugar que mais me chamou a atenção em termos culturais pelo pouco conhecimento que se tinha de lá. Porque se você vai para a França você sabe como é a França. Se você vai para a África você sabe como é a África. Tudo é muito difundido. Eu tenho comigo na vida pessoal, nunca que eu viajo eu vou num ponto turístico clássico. Seis vezes que eu fui à França, não fui conhecer a Torre Eiffel, eu já conhecia. Aquilo já estava tão em mim que a diferença de ver ao vivo ou não era muito pequena.

LG – Este é um ponto bem interessante. Na chamada editorial a gente colocou alguma coisa como essa ideia de que os turistas fazem de Nova York, essa sensação que muita gente relata de deja vu, de chegar em Nova York e dizer “como assim? Eu estava aqui na semana passada. Na minha memória, eu já chorei aqui, em filmes que assisto desde criança, em histórias que assistindo de alguma forma vivi (…)”.

TP – Sim, é que já está no teu imaginário coletivo isso. Quem já não viu “trocentos” e milhões de filmes, fotos e cartões postais da Torre Eiffel, da Times Square, do Central Park, né? E ir para um lugar, de uma forma muito forte, é fechado, não tem divulgação, me chamou a atenção e descobri que são muito próximos, são “conceituais”, ao mesmo tempo que são tão diferentes, são tão iguais. Foi um aprendizado muito gostoso isso. E de conhecer lugares mesmo que você não conhece. Eu tinha, a coisa que eu mais queria era conhecer a Praça Celestial, porque uma das imagens que mais me marcou na vida é a imagem do cara parando o tanque, o massacre da Paz. E é uma coisa maluca porque na China isso não existe. Não é ensinado nas escolas, ninguém sabe, se você parar para um jovem e perguntar ele não sabe o que aconteceu.

LG – Quando visitei a China, eu perguntei para uma guia quando eu estava na própria praça: “em 89, aquela revolução, a gente escuta várias expressões diferentes, mas a “revolução dos estudantes, do homem que parou o tanque”, e ela me respondeu: – Claro, a grande parada dos estudantes, eles sempre vem aqui para comemorar. Eu percebi que ela não tinha a mínima ideia do que eu estava falando.

TP – É o máximo que eles chegam. Se você sair dessa área turística e perguntar para alguma pessoa, ela vai dizer: “89? Ah, nada!” E é maluco também a gente perceber que hoje seria impossível isso acontecer, não a manifestação, mas de abafar hoje seria impossível. Tanto é que, Hong Kong, quando teve as manifestações, o governo cortou acesso de tudo. O Instagram era aberto lá e eles fecharam, o Facebook eles dificultaram mais ainda o acesso, bloquearam mais os acessos às ferramentas de e-mail e vazou tudo o tempo inteiro. Então jamais conseguiria fazer isso, mas essa imagem para mim era uma coisa muito forte, sempre de um povo guerreiro da China. “Cara, como parar um tanque? Que coisa maluca!”. E eu tenho a imagem clara pra mim, eu lembro a cena. Eu lembro que é mais do que a foto. Eu lembro que o tanque tentava vir pra cá e o cara dava três passos pra cá, o tanque voltava pra cá e o cara dava três passos pra cá. E esse medir forças, você contra uma lata de ferro gigante, sabe? Isso me marcou muito.

LG – Essa seria uma fotografia com alma?

TP – Sim.

LG- Técnica ou alguma coisa do tipo?

TP – Ali o registro contava tudo. Porque quando você precisa elaborar muito é porque está faltando alguma coisa, na minha concepção. Claro, tem gente que acredita diferente, mas eu acho que quando você precisa montar mais luz, fazer isso, pensar, é porque você não chegou em algum lugar ou você não sabe direito o que quer contar, você tem uma pré-definição muito grande. O grande risco: a minha fotografia por exemplo, eu não vejo a minha fotografia, eu nunca sei o que eu vou fotografar. Nunca penso como vai ser a minha foto. Vou fazer um retrato seu: eu não venho aqui pensando que vou fazer um retrato do Leo “assim, assim e assado”. Não, eu vim te conhecer primeiro e te entendendo minimamente, “grande pretensão”, em alguns poucos minutos de conversa, eu nunca chego fotografando quando vou fazer retrato. “Ah, eu só tenho dez minutos”, então “tá”, cinco você conversa comigo, cinco eu te fotografo. Vai render muito mais do que fotografar dez. Entender minimamente, ouvir o tom de voz, perceber como a pessoa se posiciona com o rosto, aí eu vou usar meu background, “ah, encaixa com essa luz, com essa fotografia”. Eu conheço muitos profissionais que até fazem trabalhos excelentes, mas que saem do estúdio, da redação, da onde for da sua base para fazer uma foto para aquela foto ganhar o tom que já estava na cabeça. E quando eu chegar aqui, eu olho: não tem uma parede azul marinho aqui? Você não pode trocar a camisa? Não tem uma camisa branca aí? Agora você fica assim, você faz assim, pode ficar lindo, mas eu construo um personagem que não é o personagem que eu fui mostrar. E pra mim é desafiador chegar, por exemplo, nessa parede branca aqui, você com uma camiseta, e eu conseguir fazer daquilo uma coisa bonita, instigante, bonito no sentido de ser instigante, de ser prazerosa de se olhar.

LG- E exatamente nesse sentido, porque eu acho que vai bem de encontro com um dos anseios desse editorial: dessa ideia da primeira edição, você acompanhou, quer dizer, não vou chamar de evolução, mas da transformação da técnica e uma horizontalização impensável num outro momento, acho que do Instagram pode ser um bom exemplo: dos filtros, das possibilidades de edição de uma forma relativamente fácil, quase como uma programação acessível. Nesse sentido, você acha que isso exclui mais o acaso da fotografia ou aproxima?

TP – Porque quando você diz que uma pessoa sai com um Layout, com uma programação? Eu acho que aproxima mais porque o fotógrafo profissional ele está com esse vicio neste momento. Justamente eu ouso dizer que ele está assustado e com medo dessa proliferação de todo mundo fotografar.

E ele acha que ele tem que se destacar através desse caminho da técnica, da construção pensada da imagem.

Eu não vejo dessa forma, eu gosto que todo mundo fotografe, quanto mais gente fotografa, mais difícil fica manipular a historia. Se eu venho aqui na praça fazer uma foto e só eu fotografo um grupo de pessoas, se amanhã apresentar esse grupo de pessoas diferente ninguém vai saber, mas todo mundo fotografando, a minha imagem tem que ser muito próxima do chamado real, do “reflexo do real”. Eu não posso tirar pessoas, mudar a cor do estádio, mas se só eu estou fotografando eu tenho esse domínio de fazer isso. Então eu gosto que muita gente fotografe, acho que isso respalda e credibiliza a imagem. Eu sempre vejo a imagem dessa coisa da reportagem, da documentação, contar histórias, para você contar historia você tem que ter credibilidade. Acho que é o mínimo possível, “olha, na China acontece isso”, você vai acreditar. Se eu perco a credibilidade, vai embora. E eu gosto dessa coisa de todo mundo fotografar. Eu sempre digo que no século XX, de todas as ferramentas de comunicação que a gente tinha de informação, a fotografia era a mais retardada, era a mais atrasada. Por mais fantástico que fosse o teu registro daquele momento histórico, ele levava um tempo. Tinha que revelar, ampliar, aquilo tinha que ser (…) Quando eu dou aula, palestra, falo para as pessoas que quando eu comecei fotografar, se eu quisesse vender uma foto em Nova York, eu tinha que ter um merchant em Nova York, eu tinha que fazer cópias, eu tinha que estar na mão dele. Quando alguém quisesse comprar aquela foto ele tinha que me enviar, falar qual era para eu ampliar, mandar para ele. Hoje eu vendo foto dormindo, eu boto no meu site à venda, eu estou dormindo e tem um pedido de foto da Tailândia. Num certo sentido ficou muito mais fácil e muito mais acessível. Ficou muito rápido. A fotografia chegou à era do rádio.

O Instagram é o rádio. Você faz e publica. E você já tem o feedback, isso é o mais legal. Você produz, encaminha e já tem o feedback. Essa é a coisa mais fantástica. É uma conversa, contar história agora ficou um papo de calçada.

LG – Muda o signo?

TP – Muda o signo. Porque conto uma historia, é como estivesse batendo papo. Deixo de ser aquele contador de causo para virar só um interlocutor. Faço a foto da praça e três minutos depois já tem alguém da praça dizendo, “ah pô, gostei disso não”, ou “olha, eu nunca vi isso na praça” Então virou um bate-papo a fotografia, conseguiu sair da história contada de uma forma devagar e ela vira um bate-papo. Uma ferramenta de bate-papo a fotografia. O Instagram é um grande exemplo dizendo isso. É uma ferramenta de bate-papo visual. Enquanto as pessoas ficam ali teclando, quem está no Instagram está ali trocando “visual”. E é muito engraçado como você percebe a personalidade das pessoas só através das imagens no Instagram. O cara que só faz Selfie, só fotografa coisas legais, aquela pessoa mais despojada que não está preocupada se a imagem dela está perfeita, mas ela quis registrar aquilo, se o cara quer só mostrar, quer ostentar em todo tipo de imagem. É muito engraçado. Para mim é uma leitura psicológica da sociedade estampada, real, claro, é uma analise pobre e empírica, “fulano é assim, fulano é assado”, mas você vai conhecer as pessoas e basicamente elas transitam por ali. Claro que as pessoas são muito mais profundas do que isso, mas elas transitam por ali. Eu adoro essas ferramentas. Eu acho fantástico. A interferência da fotografia de iPhone, já teve vários trabalhos feitos com iPhone em exposições (…) que eu já fiz com trabalhos com iPhones, fotos premiadas, para mim é um fascínio! Uma coisa tão pequena, tão simples e com tão pouca interferência. Ela chega no tom que eu quero. As pessoas me veem, me percebem, sabem que estou pegando num pedacinho ali, mas eu não me incomodo. É como aquele amigo que vem passar uns dias na casa da gente. Aquele amigo quando vem passar uns dias, quando ele fala que vem já começou a incomodar. Tem aquele que no começo é legal, mas quando começa abrir sua geladeira já fica pior. E tem aquele que anda pela na sua casa, sabe? Tranquilo! E você fala: nossa, fulano já vai embora, cara?. Eu vejo dessa forma também.

LG – Toni, muito obrigado!

Mais informações
http://www.tonipires.com.brCondução da entrevista: Leonardo Goldberg em 08/2015

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