Angústia, estresse e evolução

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O que é a angústia? Que sensação é essa que, em algum momento, é capaz de nos paralisar? O que é responsável por desencadeá-la e o que a torna tão única e distinta entre tantas outras sensações?

Muito embora seja por suas vias que vivenciamos muitas tormentas, também é através dela que podemos nos desenvolver muito mais. De qual maneira poderíamos então compreendê-la melhor?

As particularidades da angústia possuem um papel singular dentro da teoria Psicanalítica. Em sua obra, Freud dedicou muito de seu tempo para fundamentá-la, passando desde a primeira teoria da angústia, abordada incialmente em “Rascunho E: como se origina a angústia” (Freud et al., 1985), e posteriormente, de maneira mais proeminente, em “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” (Freud, 1948). Anos mais tarde, Freud retornaria ao tema em “Inibições, Sintomas e Ansiedade” (Freud, 1936) com sua teoria reformulada, colocando o conceito do complexo de castração (desenvolvido em obras anteriores), como fundamental no entendimento da angústia.
Dessa forma, a partir dos estudos de Freud, passaríamos a entender a angústia como um aparelho responsável em notificar o Ego sobre a necessidade de se defender frente a uma ameaça, e não mais uma defesa do Ego. Ou seja, quando uma situação faz um indivíduo regressar à sensação de desamparo vivenciada no nascimento e em seus momentos iniciais de vida (no caso, sensações físicas, dado que, nesse momento, a criança ainda não é capaz de simbolizar), a angústia é então “reproduzida como um estado afetivo de conformidade com uma imagem mnêmica já existente” (Freud, 1936, p.114).
Conceber a angústia como uma forma de defesa do organismo é uma ideia interessante e que encontra consonâncias em outras áreas do conhecimento, particularmente quando consideramos a angústia como uma das possíveis maneiras em lidar com um evento estressante.
O estresse evoca reações distintas no organismo, muitas já bem conhecidas pelas neurociências e estudiosos do estresse. A mais conhecida e comentada é a resposta de luta ou fuga, que é ativada via sistema nervoso autônomo simpático, geralmente frente a uma ameaça eminente. A ativação do sistema nervoso autônomo produz diversas reações no corpo, algumas muito familiares por aqueles que praticam esporte, por exemplo, aumento na frequência cardíaca, a dilatação dos brônquios, a dilatação das pupilas. Ou seja, são reações preparatórias do corpo para o que possa vir a seguir (Sorrells e Sapolsky, 2007).
Estresse e angústia se revelam aqui intimamente relacionadas. A partir dos estudos de René Spitz, pediatra vinculado ao Instituto Psicanalítico de Nova York, é possível aproximar o estresse ao desamparo, um aspecto central relacionado ao sofrimento psíquico (Arantes, 2002). Contudo, antes de proceder, é importante conceituar o que é estresse para depois expor sua possível importância como um dos responsáveis na própria evolução do homem.
Apesar da palavra estresse ser bem conhecida em diversas áreas e ser comumente empregada em nosso cotidiano, ela é utilizada de maneiras diversas na literatura. Isso não é surpresa para alguns pesquisadores como Bijlsma e Loeschcke (2005), uma vez que sua perspectiva pode mudar dependendo da disciplina que o aborda. O mais importante para os autores, no entanto, é conceituar que o estresse não corresponde somente ao aspecto do estressor, nesse caso, o meio, mas também aos atributos de quem é estressado, ou seja, o componente biológico do organismo.
O estresse nos termos pelo qual o conhecemos hoje foi estabelecido pelo endocrinologista Hans Selye em 1936. Em seus estudos, Selye verificou que diferentes organismos apresentavam um padrão de resposta similar a diferentes estímulos sensoriais ou psicológicos. Assim surgiu a síndrome da adaptação geral ou, em outras palavras, o estresse.
Muito embora situações pela qual o homem passa possam implicar em algum tipo de sofrimento físico ou psíquico, as mesmas ainda podem ser positivos. De acordo com Selye (1936), o estresse é benéfico ao organismo. Ele é o responsável pelo constante estado de alerta no qual o homem se encontra, propiciando, muitas vezes, uma resposta adequada as diferentes situações pelas quais passa em seu dia-a-dia.
Contudo, será que o estresse e as reações que ele provoca não poderiam ter implicações mais profundas como, por exemplo, na própria história evolutiva do homem?
Apesar da evolução atuar em um sentido muito mais macro (uma vez que consideramos milhões de anos) e seja dificilmente percebido pela visão micro do dia-a-dia, é possível discutir suas ferramentas, e é nesse momento que a angústia e estresse se revelam presentes.

No caso, é possível compreender a angústia, o estresse e a forma de lidar com ambos como uma ferramenta da evolução.

De um modo geral, estamos em um constante estado de adaptação, um processo de mudança para que melhor lidemos com aquilo que marca tanto o fisiológico quando o psíquico, otimizando e garantindo a sobrevivência do homem em seu meio (Bijlsma e Loeschcke, 2005).
Sabe-se hoje que antigos eventos cataclísmicos que o Planeta Terra passou foram importantes no processo de desenvolvimento e adaptação de vertebrados ancestrais. Terremotos, períodos prolongados de frio, calor e escuridão já foram verificados em laboratórios como um dos responsáveis em levar a estados de hipertireoidismo, envolvendo uma área chamada hipotálamo-hipófise-tireoide, região que para muitos pesquisadores consiste em um mecanismo adaptativo da evolução (Lippman, 1961).
Tendemos a atribuir valor as coisas que nos acontecem. Isso está ligado a formo como o cérebro categoriza a realidade para melhor compreendê-la (Morrison et al., 2015). Logo, dentro dessa categorização existem eventos bons e ruins, além de uma consequente reação de estresse e angústia. Todavia, ao pensarmos nessas questões por vias da evolução (uma visão macro), é possível os entendermos como neutros. Eles não são bons ou ruins. Eles são a história de como o homem tornou-se o que é hoje.
Curiosamente, tudo aquilo que o força a se adaptar e se desenvolver, mesmo o que pode ter gerado desgaste e sofrimento em suas histórias de vida, também são os grandes responsáveis em ter levado o homem ao momento em que se encontra hoje.

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Thiago Marinho Reis e Silva, psicólogo clínico no Espaço Poiésis Psicologia, Mestre e Doutorando em Neurociências e Comportamento pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP).

Referências

ARANTES, M. A. de A. C. Estresse. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.

BIJLSMA, R.; LOESCHCKE, V. Environmental stress, adaptation and evolution: an overview. Journal of evolutionary biology, v. 18, n. 4, p. 744-9, Jul 2005. ISSN 1010-061X (Print)
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